/ Xamanismo

Minha visita ao Xingu!

“MESMO CARECA, FUI ESCALPELADO” 

Foram 56 horas e trinta minutos, da minha casa até estar diante do Cacique Tafukumã, líder dos 700 Kalopalos que restaram nas matas do incrível e misterioso Xingu. As últimas 7 horas e 30 minutos, em barco de alumínio na descida do Rio Xingu até chegarmos lá as 23 horas, foram de intensas emoções, várias picadas pelo corpo e os dois pés inchados como bolas de boliche. 

Na descida do Rio Xingu, após as 19 horas, quando a escuridão tomava conta do nosso caminho, e os vários troncos ou mesmo os bancos de areia que se formam naturalmente poderiam virar o barco, confesso que cheguei a pensar “o que estou fazendo aqui”. Isso sem contar as informações que me vinham num ruim português misturado com karibe, que naquele rio havia muitos jacarés e muitas piranhas. 

Quando resolvi com minha alma seguir o caminho do xamã urbano, reconheci que teria que abrir mão de muitas coisas que fazia até então e ir a cada momento praticando a transformação daquele ser velho, que durante muitas encarnações esteve preso a mesmices, para encontrar um caminho ainda inexplorado, onde pudesse estar diante de situações novas que viessem me ajudar na formação de um padrão adequado ao objetivo proposto. Deduzi que minha experiência no Parque Nacional do Xingu foi um dos caminhos desta proposta e uma iniciação. 



Passei fome, pois o padrão de alimentação de tribo é em média uma refeição por dia, baseada em biju (igual à nossa tapioca) e peixe na brasa e não que eles negaram comida para mim, mas o padrão médio do “civilizado”, 3 refeições por dia, contrasta com a realidade de apenas uma refeição por dia, e acreditem, eles são fortes, lindos, felizes, bem humorados e vivem o seu dia-a-dia com intensidade e paz. 

Comparando-se com padrões urbanos de nosso país, eles vivem numa pobreza total; não têm nada, além de poucas peças de roupas, quando as usam, andam descalços quase o tempo todo, a não ser uns poucos que têm sandálias havaianas ou uns mais poucos ainda, que possuem um par de tênis. 

Eles dormem em redes, nus ou semi-nus e à noite (faz frio nesta época) acendem pequenas fogueiras em volta para aquecerem seus corpos. Água potável já têm porque a Funai colocou recentemente uma enorme caixa d’água que é abastecida por um posto artesiano e, segundo os dois Kalapalos enfermeiros do posto médico, reduziu em muito a mortalidade infantil. 

Para o banho a grande maioria ainda se utiliza de uma linda e paradisíaca lagoa que fica cerca de 1.200 passos do centro da aldeia, onde a partir das 16 horas, homens, mulheres e crianças, se juntam para tomarem seus deliciosos banhos frios, todos nus, sem nenhum preconceito ou se importarem com o outro que também está nu ao seu lado. Foi maravilhoso tomar 5 banhos na lagoa, e estar nu como eles estavam, sem a preocupação de estar fazendo alguma coisa que venham a me chamar a atenção ou algum tipo de reprovação por comportamento considerado imoral. 

O pajé está na dele. Tivemos uma boa conversa, trocamos nossas experiências sobre cura (na cidade grande chamamos de tratamentos xamânicos ou mesmo Roda de Cura) e na aldeia este nome eles nem conhecem, pois é a pura medicina espiritual deles. Concluímos que aquilo que ele pratica lá é a mesma técnica que praticamos aqui, com a diferença que lá ele sai do corpo em transe xamânico e permite que os ancestrais tomem seu corpo e dirijam o tratamento, após a absorção de um enorme cigarro/charuto de fumo que ele mesmo planta, seca e prepara para o ritual. 

A coisa que mais senti falta lá foi a cadeira. Como é duro não ter uma cadeira para sentar. Ficar o dia inteiro sentando no chão ou em pequenos troncos de árvores a cerca de 15 cm do chão fazem as nádegas criar calos e a coluna reclamar, além de não ter um espaço de sombra durante o dia, onde se possa sentar, ler, descansar, ficar quieto, etc.. No único lugar que encontrei cerca de 100 metros atrás da casa do cacique, conseguia ficar lá no máximo 3 a 4 horas por dia, passando repelente até 7 vezes, e mesmo assim voltando com mais de 50 picadas pelo corpo. 

Necessidades fisiológicas são feitas atrás das ocas ou nos matos próximos e papel higiênico é lá uma idéia surrealista e utópica. Sobre sexo consegui falar com 4 homens e aprendi que este aspecto tem um certo tabu, pois todos deram risadas amarelas demonstrando que não se sentiam muito à vontade ao falarem sobre sexo, mas confessaram que dificilmente praticam sexo com suas esposas na oca e que normalmente usam do mato para fazerem seus encontros amorosos durante o dia. 

A aldeia que me hospedei faz parte de um conjunto de 8 aldeias que se estende por 300 km rio Xingu abaixo, tem 240 pessoas, com 25 ocas, dispostas uma do lado da outra, formando um círculo central entre elas de 400 passos de extensão e a oca que fui hospedado, tinha 12m de largura por 40m de comprimento, com 18 moradores. 

Mas eu disse acima que fui escalpelado!
Sim, fui escalpelado no choque das civilizações e das diferenças culturais que assisti pacientemente e também na risada alegre que escutei o tempo todo que lá estive. Fui também escalpelado em ver o quanto eles podem ter mais coisas, apenas com um pouco de organização e ordem, mas a escolha deles é imperativa e estão vivendo aquilo que escolheram para si. 

Mas o principal escalpe se deu ao constatar que durante 5 longos dias, não presenciei nenhuma briga, nenhuma discussão, nenhuma desarmonia ou alteração de voz, mesmo entre as crianças que brincavam diariamente o tempo todo, todas nuas, nas poeiras daquela terra santa. 

Nossa civilização tem uma estrutura psicológica chamada lado sombra ou criança interior, onde se armazenam as dores, medos, mágoas, os abandonos de nossas vida e esta estrutura promove todo o desequilíbrio emocional que praticamos em nossas vidas. Na maioria das pessoas, a criança interior comanda suas ações e lhe dá o grau de satisfação ou insatisfação que conseguimos gerar a cada momento, pois esta criança interior sofrida, magoada e abandonada é a responsável por parte do sofrimento humano. 

Meu escalpo acabou de cair ao verificar como é sadia a criança interior de cada irmão índio encontrado no meu caminho. São verdadeiros, humildes, autênticos, felizes. Uns visitam os outros em suas ocas. Conversam, riem, tocam-se. Acolhem, são amorosos nas relações em si, com as mulheres, crianças e velhos e com todos aqueles que lhe cercam. Não vi nenhum mau humor ou qualquer tipo de agressividade, pelo contrário, alguns vinham até a mim, às vezes sabendo 4 ou 5 palavras de português e me davam as boas-vindas, queriam saber se eu era casado, se tinha esposa, filhos, família. Eles têm uma vida interior próspera e alegre que nós da cidade grande desconhecemos.
Eu, branco de fato, mas pele vermelha de coração, recebi uma aula de civilização indígena e guardei para minha vida a constatação de quanto eles são superiores em qualidade de vida interior: rica, amorosa e cheia de esperança. 
Você, homem civilizado que me lê, como tem sido sua vida interior: livre, esperançosa ou cheia de travas, preocupações? E sua criança interior como é, feliz, amorosa, nutrida, ou mau humorada, infeliz e pessimista? O que você tem escolhido para ser em sua vida? 

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