/ Psicologia

Qual a copa que perdemos?

 Ou, qual a copa que ainda não ganhamos? 


Não sou daqueles que consideram o futebol como ópio do povo. Precisaríamos também considerar o Alfred Nobel um propagador deste “ópio” pois inventou a dinamite, e ao invés de abrir estradas e criar melhores condições de vida aos homens, passou a fazer parte de bombas que mataram milhões de seres humanos, em muitas delas jogadas através do invento de Alberto Santos Dumont, que deve também ter sido um “ópio”, pois no lugar de diminuir distâncias e aproximar pessoas, criou desgraças e aniquilação entre nós. 

O que tem dado esta sensação de ópio do povo é a maneira com que a mídia e, principalmente, as empresas patrocinadoras vendem como a idéia do futebol... ”é a pátria de chuteira” ... ”somos melhores que os argentinos” ... “somos os melhores do mundo” ... “é o país do futebol” ... É... é o país do futebol, mas só do futebol? 

São 180 milhões de futebolistas parindo a cada dia várias bolas, enterrando outras tantas; comendo bola, educando-se com uma bola, alimentando seus bebês com uma bola, tomando 1 drágea de bola ou 20 gotas de bola várias vezes ao dia, para passar suas dores físicas; indo a psiquiatras e psicólogos com suas bolas e, nos consultórios, fazem verdadeiros “rachas” com os doutores. E em suas igrejas e templos acendem suas velas de todas as cores para seus anjos, mestres ou santos para que suas bolas sejam abençoadas e “livradas de todo o mal”. 

Mas há algumas bolas más que são colocadas dentro de umas máquinas inventadas por Mister Colt e são atiradas em muitas pessoas. E, ultimamente, o hábito tem sido atirá-las em policiais nos dando uma total insegurança com relação à ordem pública, sem falar nas lindas bolas que são enroladas em papeizinhos para se fumar, ou outras e muitas bolas que se diluem e a transformamos em pós e a misturamos em líquidos para serem aplicados em nossos organismos, ou outras que numa linda carreirinha a sugamos pelas narinas e dá um “bolarato” incrível e saímos da sintonia da vida, entrando assim na “bola total”. 

É esta sensação de “bola total” que sinto comigo e em muitas pessoas com quem convivo. Nós estamos anestesiados. Não sei se a crença de que Deus é brasileiro é real, mas o Grande Pai deu uma enorme mãozinha a todos nós e nos fez perder esta copa, pois temos que arrumar nossa casa chamada Brasil. E se tivéssemos ganhado, de fato, a vitória serviria como um ópio para nossas consciências. Fatalmente esqueceríamos que temos que construir uma nação, uma identidade, uma consciência de patriotismo, pois ele infelizmente só se reflete em algumas chuteiras. 

Vivemos um momento de confronto sem precedentes na história brasileira. De um lado a sociedade organizada que trabalha, produz; e de outro lado a sociedade que trafica, que ameaça, que mata e tenta criar um modelo paralelo de governo e de hierarquia humana. 

Mas, será que nossa sociedade é organizada? Podemos considerar organizada uma sociedade a qual permite que diariamente se produzam centenas ou milhares de delinqüentes, sem a preocupação de todos nós em cuidarmos para que as frágeis crianças que não tiveram a mesma sorte dos nossos filhos em receber uma boa educação, valores éticos e espirituais com qualidade, sejam adotadas a cada momento pelo tráfego de drogas, de armas e pela prostituição dos melhores anseios da alma humana? 

Muitos falam que “os nossos governantes quando entram lá, esquecem os compromissos” ... “os nossos políticos e homens públicos, em geral, praticam a corrupção” ... e nós, o que fazemos? Absolutamente nada. Não fazemos nada. Ficamos paralisados pelo ópio igual aquele do futebol, ou da dinamite, ou do avião, ou do revólver, e agimos como se o problema não fosse nosso. O problema é das autoridades, é do governo, é dos políticos que não prestam. E eu presto? E você que lê presta? Quem elege os políticos e não faz nada quando ele erra? O problema é dos outros não é meu... Mas agora, depois de tantos anos de descaso, as águas estão subindo e batendo nas nádegas de todos nós. 

Vivemos um momento cósmico onde a mentira, a dissimulação, o desrespeito às leis da vida não têm mais lugar. Tudo é de todos e todos somos um. Tudo o que acontece nesta Terra Brasilis é de responsabilidade de cada um dos 180 milhões de seres que aqui nasceram ou a escolheram para morar. E precisamos agir. Precisamos de atitudes práticas e atitudes políticas. 

O sistema prisional do Estado de São Paulo mantém em seus quadros, segundo li nesta semana, 25.000 funcionários para cuidar de cerca de 125.000 presos. São 5 funcionários para cada detento o que, certamente, a grosso modo, e sem maiores dados financeiros, são no mínimo R$ 50.000.000,00 por mês, fora os custos da manutenção dos presos que devem ser certamente superiores a R$ 150.000.000,00 por mês. E a soma do custo do sistema prisional no nosso Estado passa dos 200 mlhões de reais por mês, acima de 2 bilhões e 400 milhões de reais por ano. 

Sabe o que daria para fazer com uma pequena parte deste dinheiro? Daria para a sociedade e o governo acolherem todas as nossas crianças e adolescentes, dando-lhes condições que exerçam sua cidadania, que tenham o direito, determinado na constituição, de educação, amparo, moradia, saúde e alimentação. Sabe como isso pode ser feito? Da maneira mais simples: em cada bairro, vila, periferia, favela, etc, onde houver um bolsão de carência, que seja criada a infra-estrutura para se dar qualidade de vida a estas crianças. 

Como exemplo pega-se uma favela, monta-se na própria favela um enorme clube social, que pode ser administrado pelos moradores, serviço social e empresas. Lá se constroem várias quadras de esporte. Lá eles terão inúmeros professores de educação física, treinando estas crianças. Montar creches com funcionários especializados, dando emprego aos próprios moradores, para que suas mães possam trabalhar com a segurança de que ao voltarem para casa à noite, seus filhos foram amparados, bem tratados e alimentados. Um enorme espaço para artes, onde quem não quiser o esporte, possa se interessar por dança, teatro e oficina de trabalhos manuais; onde a criança possa aprender uma profissão. A construção de escolas para que a criança, em seu próprio meio social, seja alfabetizada e não tenha vergonha e sim orgulho de sua cidadania. Um grupo interativo de assistentes sociais e psicólogos, além de médicos e dentistas para que sua saúde emocional e física seja tratada como prioridade pela sociedade. 

Com leis práticas e não burocráticas, uma idéia como essa poderá ser aplicada e com um custo financeiro e social bem menor do que a sociedade paga como um todo. Como executar isso? Divulgando uma idéia como esta. Pressionando o vereador, o deputado, o senador, nas empresas onde trabalhamos, nas comunidades religiosas às quais pertençamos, etc. 

Pode ser que você que me lê tenha até uma idéia bem melhor do que esta. Não importa de quem é a idéia; o que precisamos é do movimento, da ação, pois se não fizermos alguma coisa forte e urgente, muito em breve seremos prisioneiros em nossas próprias casas. Conto com você! 
 

Texto revisado por: Cris