/ Psicologia

O Homem-Futebol

 Sem querer contradizer a cronologia do Sagrado Livro chamado “Bíblia”, de 7.200 anos para cá o ser humano começou a reconstruir novamente a civilização, que foi literalmente dizimada, pelo importante evento chamado de “Dilúvio Universal”.

A história da humanidade começa a ser contada à partir daí, pois mesmo a ciência comprovando a existência de civilizações inteligentes antes deste período, nada ou quase nada ficou como fato concreto, que nos desse a possibilidade de uma prova irrefutável de tudo o que tenha ocorrido no planeta, antes desta época.

Assim, depois do dilúvio, começamos a organizar novamente o caos em que se situava nossa sociedade, e a energia masculina, foi a que criou todas as condições para que nós chegássemos hoje, com a estrutura deste mundo que temos, que mesmo não estando tudo em ordem, creio que muitas das coisas já estão ou se encaminham para tal.

Voltem àquele momento e pensem juntos: “ o que tínhamos de planejamento de vida? Quais eram as nossas conquistas materiais? Como a sociedade era organizada? Como era a estrutura familiar? Que meios científicos dispúnhamos que facilitassem a sobrevivência humana perante um simples resfriado? As viagens eram feitas como?”

Se responder “não sei”, estará sendo honesto, pois de fato quase nada nós tínhamos e a vida continuava e precisava ser restabelecida.

Contam tradições anteriores a esta época, que nos primórdios do desenvolvimento da civilização humana, depois da fase das cavernas, onde tudo era rude, difícil, com animais poderosos e o homem fraco e sem armas e precisando proteger sua família e seus poucos bens, o homem se viu obrigado a desenvolver dois comportamentos que fazem parte da história psicológica de cada mente masculina: O Herói e O Guerreiro.

Com o passar dos anos, estes papéis desempenhados durante milênios pelo masculino, acabaram se tornando arquétipos, e em guerras, na defesa da família, nos descobrimentos, na saída de casa para a caça e alimentação do grupo coletivo e outros tantos, O Herói e O Guerreiro, passaram a fazer parte do conjunto de comportamentos esperado em um homem.

Após o Dilúvio, estes comportamentos se acentuaram, o homem saiu pelo mundo para reconstruí-lo, usando toda sua força e competência e em algumas sociedades atuais, principalmente O Herói, é muito cultuado, como no povo Norte Americano ou O Guerreiro em várias sociedades tribais indígenas e africanas.

Mas, sempre evoluindo, a nossa história começou a mudar. Quase não sobra espaço hoje para o homem ser Herói ou Guerreiro. Hoje já não há tanto espaço para se conquistar. As terras são todas conhecidas. Os descobrimentos são realizados em laboratórios. As mulheres já se salvaram há muito tempo e não precisam mais ser salvas ou protegidas.

A utilização destes dois arquétipos, hoje em dia, está mais restrita a dura luta diária para trazer à sua casa o “Pão Nosso de Cada Dia” e poucos sonhos de conquistas e glórias.

O sonho é fundamental para cada ser humano. Ele comanda uma parte importante de nossa Psiquê. O sonho nos impulsiona à realizações. E com quê o homem sonha hoje?

Creio que sonha com muita coisa, mas grande parte destes sonhos, está transferido para outros Heróis e outros Guerreiros. Pessoas ou comunidades com o qual se identificam e fazem por si, o que o meio social ou outros motivos, o impedem de fazer.

Isso explica o grande interesse do homem pelo esporte, e principalmente pelo futebol, fato que muitas mulheres não entendem e criticam, mas não abrem mão de suas novelas, programas de modas ou outras necessidades que também para o homem, quase não fazem sentido.

A competição masculina, desde o início da infância, está estabelecida na utilização de sua força, sua criatividade e superação do seu concorrente, como o Herói e o Guerreiro.

Lembram-se da corridas entre a turma? Das lutas entre meninos? Dos brinquedos de pega-pega ou enconde-esconde? E os jogos? O cortar as linhas das pipas dos outros? As grandes confusões do jogo de bolinhas de gude? As “peladas” nas calçadas, nos quintais, nos campinhos, no colégio? Tudo foram etapas, onde o processo de socialização se realizou em muito, através de singelas competições entre seus coleguinhas de infância.

O Herói e O Guerreiro que foi vivido por todos nós homens nas nossas infâncias, quase não pode mais ser vivido no mundo atual. E o que fizemos então?

Desenvolvemos um grande contigente de Heróis e Guerreiros que fazem este serviço para cada um de nós e na nação brasileira os MAIORES HERÓIS E GUERREIROS, os que mais se aproximam dos ideais dos nossos Inconscientes coletivos, são os JOGADORES DE FUTEBOL.

Cada torcedor de um time, tem um código de honra que o liga emocionalmente à clã que veste aquela camisa e o “jogo de bola” é uma tremenda guerra ou desafio, onde nossos lados Heróis e Guerreiros são expostos em cada partida e a derrota deste nosso lado emocional e pessoal, que foi transferido ao jogador, é uma possibilidade que nos magoa, nos diminui, humilha e faz sofrer.

Talvez isso possa explicar, a até desenfreada agressividade de muitas torcidas organizadas que ao verem seus Heróis e Guerreiros não cumprindo suas partes, pois “eles jogam por mim, eles lutam por mim, eles estão em campo para defender um lado meu, ou até a minha honra”, tentam resolver de uma maneira “Guerreira e belicosa” a situação de derrota e humilhação e acabam tomando atitudes desesperadoras e em muitos casos, colocando em risco de morte muitas pessoas que estão em sua volta ou que são motivadoras de suas frustrações, como a “torcida inimiga”.

No meu ponto de vista, os participantes das torcidas organizadas, são os mais sensíveis e que mais sentem a necessidade de viverem estes dois importantes papéis da psiquê masculina. De uma maneira geral, eles se envolvem tanto com seus Heróis e estes “precisam” cumprir suas façanhas para aqueitarem esta sua necessidade que quase não sobra tempo para suas vidas particulares, ou outro tipo de atividade social. Quase tudo em sua vida, está ligada à torcida do seu time e ao grupo que comunga dos mesmos ideais.

Ao olharmos a história do futebol brasileiro nos últimos 20 anos, constatamos que ele como espetáculo social, como reunião de grupos, só tem fracassado. Entendo que estas torcidas tem tudo a ver com esta situação, pois sua vontade interior de ganhar, de se sentir Herói ou Guerreiro através dos jogadores de seus times, ajuntados com as mudanças das estruturas econômicas que levou nosso nível sócio-econômico para o “vinagre” e dos padrões educacionais nas famílias, onde o limite ao adolescente, é uma coisa que muito tem faltado no conjunto das famílias, faz com que ele em um grupo de iguais, ao se sentir perdedor, tenha um comportamento de agressividade superior ao esperado, afastando as pessoas mais centradas e emocionalmente mais estáveis dos estádios e da participação desta grande festa nacional, o futebol.

A camisa do meu time, para muitos é a honra mais importante de minha vida. Ela me faz mais homem, ela me dá a possibilidade de viver batalhas e conquistas e me tornar um grande vencedor no final da guerra dos 90 minutos.

Diz o grande filósofo contemporâneo Bertrand Russel no seu livro A Autoridade e o Indivíduo, que a agressividade do ser humano se fosse canalizada para esportes, atividades políticas e sociais, certamente o mundo estaria bem melhor e seria mais feliz como um todo.

Seguindo este conceito que aceito como confiável, ouso sugerir aos fanáticos torcedores das mais variadas clãs, que pratiquem um pouco mais o futebol. Joguem um pouco mais de bola, faça uma grande pelada toda semana com sua turma, e jogue toda sua necessidade de vencer e competir junto aos seus amigos e permita que o futebol, seja apenas para você uma grande diversão, um grande laser e dê a chance de todos poderem voltar aos estádios e comungarem com toda a nação brasileira, a beleza de verem aquela amada camisa de nosso time competindo, ganhando, perdendo, mas e principalmente, entendendo o próprio fluxo da vida que é de ter-e-não-ter, ganhar e perder, ou seja, de troca, troca constante e a todo momento.

Se você não entendeu o que é troca, eu só te pergunto: o ar que acabou de respirar fica dentro de você para sempre? A comida que comeu e a água que bebeu ontem, ainda estão em seu organismo? Competir pode ser muito bom, muito saudável, mas ser fanático, tira a pessoa do seu centro, do seu equilíbrio, e certamente gera uma profunda ansiedade e frustração, responsável pelo nível de agressividade de nosso futebol.

Você pode permitir, que o jogador do seu time que porta a sagrada camisa do teu herói e guerreiro idealizado, seja aquele que lhe traga muitas alegrias e prazeres, se entender que isso á apenas parte de sua vida, mas nunca poderá ser a sua vida. Sua vida é muito mais do que isso. Lembre do Barão....” o importante é competir”...! 

Dr. Irineu Deliberalli – Psicólogo Clínico