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A Indenização Feminina!

A INDENIZAÇÃO FEMININA
 
Como homem e psicólogo clínico, vivo bem de perto e diariamente, o complexo processo emocional da mulher e uma grande maioria delas chegam a afirmar: ...”Como é difícil entender uma mulher”.
 
Eu tive uma idéia alguns anos atrás de escrever um livro para homens, o “Só Para Homens”, e só depois de tê-lo publicado que cheguei á conclusão que tinha escrito o livro para o gênero errado. O livro deveria ter sido Só Para Mulheres.
 
Não há como se escrever sobre desenvolvimento humano e emocional, sem passar pelo papel mais difícil que um ser humano pode ter que é o papel de Mãe.
 
A mulher/mãe/matriz, detém em sua ”fôrma” um complexo e profundo mecanismo emocional, que é só dela, mulher e que o homem tem grandes dificuldades de entender, por ser seu universo emocional mais restrito, e por isso muitas relações afetivas se tornam distanciadas e a própria mulher, que sente visceralmente estas emoções, também não consegue entender o que, o porquê e o como é esta realidade emocional.
 
Devido esta complexa aparelhagem emocional, é comum vermos diariamente uma quantidade enorme de mulheres sofrendo afetivamente, ou porque a relação vai mal ou porque a relação terminou. Em ambos os casos, choro, desespero, inconformação e uma enorme indignação, que normalmente vira uma raivosa e até odiosa cobrança do objeto amado que se esvaiu.
 
Quando isso acontece, a tendência da mulher em sua grande maioria é parar sua vida, entrar num luto de grande sentimento de desvalia e tristeza, e até depressão, questionando muito tudo o que está acontecendo. Em sua mente que chora e reclama, tem lá no fundo uma enorme emoção que não aceita o rompimento ou a maneira que ele ocorreu e pede indenização pelo investimento na relação, pelo tempo perdido e que deu em nada, quase que sempre culpando o parceiro, não conseguindo entender que em cada relação somos nós, homens e mulheres, responsáveis por 50% daquilo que irá acontecer.
 
Homens e mulheres quando entram numa relação afetiva, é comum que tenham na mente uma receita pronta do que deve acontecer. Criamos a expectativa de que o outro irá agir da maneira que nós desejamos, pois desde o início da relação este foi o papel que escolhemos para que aquela pessoa viesse a desempenhar em nossa vida, sem nos darmos conta que talvez esta possa não ser a vontade da outra pessoa e sim a nossa.
 
Assim nos frustramos imensamente quando constatamos que o outro não cumpriu o script que eu tinha preparado para ele. Jogamos raivas e culpas na outra pessoa, apenas porque ela não conseguiu corresponder as minhas expectativas, e é como se tivéssemos um lado bem onipotente dentro de nós dizendo: “quem é esta pessoa para não fazer da maneira que eu quero?” E isso na mulher é muito mais ativado do que no homem.
 
Estas emoções do feminino diante da ruptura de uma relação são tão dolorosas, e passam a ocupar tanto tempo de sua vida, que sua atitude pode vir a  se tornar obsessiva, pois não consegue se desligar, não consegue viver o seu momento presente, sempre voltando à relação, à queixa do término dela, tentando entender o porque, ou como, ou se ele me falou tal coisa, porque agora mudou? Como ele pode ter me dito tal coisa e agora não confirmar?
 
E com emoções e sentimentos bem parecidos como estes descritos, ela fica remoendo, voltando e remoendo e não consegue encontrar a paz, o centramento emocional e se desligar. Por isso afirmo ser obsessivo este comportamento e ele não permite preencher sua vida com outras energias, com outras possibilidades e até mesmo pessoas novas.
 
Há uma enorme energia psíquica revoltada, de luto, doída, raivosa, rancorosa, triste, depressiva, até vingativa e por isto não consegue manter-se em equilíbrio e lá no fundo, pude aprender com a própria mulher que este lado ferido exige indenização. Alguém tem que pagar por esta dor.
 
Importantes correntes do conhecimento psicológico afirmam que no nosso arquivo de emoções, todos nós temos uma secção ou departamento chamado de Criança Interior, que retém e armazena todas as experiências já vividas, principalmente aquelas que experenciamos nos 7 anos iniciais de cada encarnação.
 
Assim, temos a convicção de que nesta Criança Interior, estão registradas inúmeras histórias de todas as nossas existências e estas histórias que podem ter ocorridas em nossas vidas de uma maneira não muito feliz e estão lá neste arquivo, em formas das mais variadas emoções, pedindo que sejam novamente enfrentadas, transmutadas e escritas de uma maneira que não nos machuquem como já ocorreu no passado.
 
O universo nos demonstra a toda hora que não há acaso, e sim o sincronismo, como falou Jung. Cada coisa que acontece tem o seu motivo para tal e a mulher que tem uma psique muito mais rica do que a do homem, também acaba tendo um complexo e às vezes difícil caminho de encontrar seu ponto de equilíbrio e que para que aconteça terá que fazer um trabalho de entrar em si e reconhecer algumas coisas lá existentes e que grande parte das mulheres passa por cima, cobrando do parceiro uma dor emocional que é sua..
 
Quando não faz este trabalho e uma crise de relacionamento acontece, a mulher fica muito  vulnerável, trazendo á tona toda carga emocional que está em seu arquivo à vida presente e ela acaba tendo muita dificuldade de lidar com este momento e sair da dor que a acometeu.
 
Vamos tentar entender os motivos que fazem muitas mulheres sofrerem em excesso quando uma relação afetiva termina e principalmente quando é o homem que sai da relação sem que a mulher queira.
 
O funcionamento emocional do homem se dá mais de uma forma linear e da mulher mais de uma forma circular. O homem é mais objetivo, focado nos resultados, representa a razão e tem o papel cósmico de proteger o feminino e mulher é mais emocional e olha muito mais detalhes do que o homem é o ser que se entrega e acolhe para ser protegida.
 
Esta complexidade de ser circular e precisar observar tudo o que está à sua volta, dá á sua mente, um processamento de muito mais informações que o masculino processa e para ela mulher, ter a informação é uma forma de poder. Observem como as mulheres são mais curiosas, perguntam tudo, querem saber de tudo, questionam até em demasia. Será apenas curiosidade ou necessidade de obter a informação para controlar o ambiente e as situações?
 
Como ela observa mais, também observa mais as pessoas, e observa mais e de maneira não tanto sadia em muitos momentos e outra mulher. A outra mulher passou ser para ela um ponto de referência.
“Se ela tem, eu também quero ou preciso ter, senão vou me sentir inferior á ela ou elas”.
Por que é assim com as mulheres, ou com a grande maioria delas?
 
É possível que haja ainda muitos outros motivos para serem descobertos, mas alguns deles pudemos aprender e vamos tentar entendê-los.
 
Todos nós somos frutos do amor ou desamor que recebemos nos sete primeiros anos de vida. Dizemos desta maneira, porque até os sete anos, formamos nossa raiz psicológica e a família, quem toma conta de nós e o ambiente que vivemos são marcas fundamentais em nosso desenvolvimento emocional.
 
Todos nós trazemos um grande arquivo de experiências passadas que estão relacionados á memória extra-cerebral, as tão populares vidas passadas e neste arquivo temos as histórias de várias vidas, onde em todas elas fomos crianças e deixamos de receber o apoio, o amor, a proteção, o encorajamento para que tivéssemos uma vida sadia e equilibrada.
 
Nossos pais, por melhores que tenham sido, trazem a marca do desamor que receberam e esta marca, passada a cada filho/a gerado faz com que nos tornemos pessoas adultas e carentes e por este motivo não desenvolvemos um amor maduro e assim também não sabemos amar maduramente nossos filhos.
 
A cada encarnação a marca deste amor não maduro fica em cada um de nós, formando um vazio existencial, com uma crença interior que não devo ser muito bom, pois sou carente, às vezes inadequado e não consigo encontrar alguém que me ame. Este fato está presente em homens e mulheres, Mas na mulher quando menina há alguma coisa a mais que acaba sendo muito impactante no desenvolvimento de sua vida emocional até os sete anos, que não acontece com o homem/menino.
 
Por volta de 3 anos, a menina tem a necessidade de romper com a mãe e se apaixonar pelo papai e começa a competir com a mamãe pelo amor do papai. Como normalmente a mãe é imatura e ao perceber o que está ocorrendo sente ciúme. Aí a menina absorve este comportamento e irá competir com a outra mulher o resto da vida. Por outro lado romper com esta mãe e competir com ela provoca em sua boca do estômago um vazio, uma insegurança e que a mulher adulta sabe que está aí até hoje, pois este buraco emocional é sentido em todos os dias da vida de uma mulher.
 
Paralelo a este acontecimento, outro fator impactante ocorre com a menina: ela um dia percebe que não tem um pênis e que aquele que tem um pipi é mais valorizado socialmente e lhe são dados mais chances. Ela entende que este pipi representa poder. Como ela é ainda uma criança com menos de sete anos, estas diferenças sociais, sexuais e emocionais, entram em sua vida de uma maneira traumática gravadas em sua criança interior.
 
Com a mãe ela aprendeu a competir com a outra mulher e a sentir o vazio e a insegurança que este rompimento com a mãe representou.
Por não ter o seu pipi, ela se sente inferiorizada, pois aquele pipi representa o poder da sociedade, a permissão de muitas coisas que não são permitidas á uma menina. Aí ela menina desenvolve um mecanismo compensatório e elabora um plano de um dia ter um pipi só para si.
 
Se fosse sexual, quando ela tivesse as primeiras experiências heterossexuais o problema estaria resolvido, mas não é sexual é social e emocional.
E só quando ela é mãe de um filho homem que este fato vai se concretizar, pois ela olha para aquele menino e lá dentro, de sua criança interior, uma voz lhe diz: É meu!
 
Este problema da menina passa a ser o grande problema do homem. Tudo no universo está relacionado. A mãe normalmente coloca seu limite com a filha, mas com o filho ela é mais permissiva e esta permissividade é o grande empecilho ao desenvolvimento da maturidade masculina. Na cabeça de sua criança interior, ela precisa privilegiar o filho, pois ele representa um ideal da infância que agora está se concretizando.
 
Este é um dos motivos que muitos homens simplesmente somem, depois de um primeiro encontro, fato que agride sobremaneira a mulher. Acredita que não deve nenhuma justificativa à mulher, pois sua mãe o ensinou assim. Não respeita este lado emocional ou a necessidade emocional da mulher. Não aprendeu a respeitar a mulher. Em sua criança interior está um aprendizado que a mulher não precisa ser respeitada, pois ela só existe para me suprir, me amar e eu não preciso ter um compromisso mais sério com ela. Eu não preciso amá-la, pois não aprendi isso.
 
Por outro lado, quando rompe com a mãe e se apaixona pelo pai, a menina fica com um grande vazio existencial pela ausência da paixão pela mãe/matriz em sua vida. Ela ama o pai é maravilhoso, muito bom, mas pai é pai, e mãe é mãe. Cada um tem um papel e uma finalidade.
 
A menina então cresceu com o vazio existencial da ausência da mãe e esta marca está forte na sua criança interior e quando uma relação com um homem é rompida, e este homem representa em sua criança interior o seu pai, ela não agüenta. “Com a mãe está difícil até hoje, mas eu consigo levar, mas agora me tiraram o pai também”?
E aí acontece uma grande hecatombe. Quando há o rompimento com o masculino/homem/pai, este mulher/criança/feminino, desespera-se e no seu arquivo de criança, o que há?
 
Dores, luto, desamor. Ela tem muita dificuldade de lidar com isto que volta á tona e quer de alguma maneira uma indenização. Alguém tem que pagar pela dor que estou sentindo. Esta sensação de abandono não pode ficar desta maneira. Alguém tem que ser responsável por isso, pois uma criança nunca é.
 
Por isso entendemos que a dor que uma mulher passa diante de um rompimento afetivo, está além do momento do rompimento. Está numa estrutura mais profunda, na sua criança interior e se não tiver coragem de entrar nela e questionar, de ensinar a esta criança que ninguém tem obrigação de me amar, apenas eu tenho esta obrigação. De que ninguém é culpado pela minha carência, pelas dores emocionais que trago para serem curadas.
 
Se fizer este enfrentamento, em breves dias se libertará da dor do rompimento e deixará de transformar a sua vida num mar de lágrimas e queixas a cada vez que uma relação afetiva não der certa e abrirá as portas para a compreensão do sincronismo do universo, onde aprendemos que uma relação só pode ser madura e feliz, se ambos estiverem em sintonia e interessados na construção da amorosidade e poderá finalmente entender que se não deu certo, não era para dar. Certamente o universo nos abrirá outra porta e nos dará outra chance, como tem feito a milênios com toda a humanidade.
 
Irineu Deliberalli
Psicólogo e Xamã